1996. Ano memorável: conheci meu amor e tive muitas conquistas e desafios

 No dia 27 de abril de 1996 aconteceu o melhor acontecimento da minha vida: conheci a Tati em uma balada em São Paulo e ali percebi que a amei logo de imediato, e que seria a minha futura esposa. Uma loucura, pois ela tinha dezesseis anos e eu vinte e três. Por fim, não foi tão insano assim. Na segunda-feira, após a paixão me pegar de jeito, estava cego, completamente deslumbrado, com as “pernas bambas” e fala ofegante. Sabia que, talvez, esse sentimento pudesse atrapalhar os negócios, mas eu estava cego de amor, e quem se sente assim prefere arriscar tudo, inclusive encarar a família dela, já apostando no casório.

Voltando à gráfica dos meus amigos, a coisa começou a tomar uma proporção tão grande, em número de pedidos das empresas dos meus amigos e da empresa de papel e de insumo, que ficou insustentável eu conciliar tudo isso com a paixão que me atacou de uma forma tal, que não conseguia mais enxergar outra coisa a não ser: querer vê-la todos os dias.

Foi quando, em uma quinta-feira, os meus amigos da gráfica me ofereceram uma sociedade de trinta e três por cento sobre a empresa, em troca de uma boa grana, praticamente todo o bônus que eu tinha guardado, mais cem por cento do meu tempo investido na sociedade, apenas nela. Foi irrecusável, os meus ganhos reais potencializariam em dez vezes, em relação ao que eu ganhava nas empresas de celulose e insumos.

Foi uma semana extremamente difícil, pois eu tinha que largar tudo aquilo que construí para iniciar em outro ramo, que para mim, já estava dentro do meu segmento e que não teria problemas em me adaptar, mesmo porque a minha experiência no papel e nos insumos era a base da indústria gráfica. Foi naquele dia que me lembrei do amigo da minha rua, quando ele me mostrou a máquina gráfica turbinada na impressão de catálogos. Eu pensei bem e tomei a decisão: serei um empresário do ramo gráfico e com foco em organizar o setor e entregar qualidade, preço e prazo!

Na segunda-feira, liguei para a Tati, nos encontramos e, pela primeira vez, ela me perguntou o que eu fazia. Eu disse, com o peito erguido como pombo, aos meus vinte e três anos: empresário da indústria gráfica! Ela, como tinha apenas dezesseis anos, não entendeu quase nada do que eu estava falando, mesmo porque, na ETE Getúlio Vargas, onde estudava edificações, os seus dias eram de muito foco e estudo, e eu já estava “na pista” desde os meus onze anos, sendo que até os treze vendi maria-mole e gelatina, de porta em porta.

Na quarta-feira, voltando à gráfica, os sócios e eu fomos ao contador, passamos um terço da empresa para o meu nome, almoçamos para comemorar e, à tarde, fui me demitir das empresas que me deram a oportunidade de estar ali, sendo sócio de uma indústria gráfica.

Pedi dois dias de descanso para meus dois sócios e se poderia iniciar com eles na segunda-feira próxima. Acertados os detalhes, corri para ligar para a Tati e contar a novidade: o fato estava consumado. Como jovens e do povo, fomos ao Habib’s, uma febre na época, e comemoramos comendo vinte esfihas de queijo cada um. Isso mesmo, cada um. Acho que estudar como a Tati estudava devia dar uma fome de camelo. Eu comia porque sempre comi de “esganado” que sou.

Voltando aos trabalhos na segunda-feira, dividimos a empresa em três, administração com o sócio mais velho, fábrica com o do meio e eu com o comercial, que na verdade já era sustentado pelas empresas indicadas por mim.

Foi um ano muito bacana, de muitas vitórias! E eu como iniciante confiava cegamente nos dois sócios, mesmo porque eu nunca fui bom em administração, ainda mais contar centavos, como se contava na indústria.

Como sou um cara de sorte, a coisa estava muito boa para ser verdade.

Certo dia, cheguei à tarde para trabalhar, pois de manhã fazia visitas a clientes, e virando a esquina, ainda de dentro do carro, eu vi os dois sócios sentados na guia da calçada e uma faixa da Receita Federal interditando a empresa, juntamente com uns cinco ou seis oficiais de justiça, com intimações de busca e apreensão em mãos, para retirar as máquinas e lacrar o prédio.

O que fazer em um momento desses? Para mim foi simples, sentei-me ao lado deles e contribuí com a mesma cara de azedo que eles estavam. Nem perguntei nada, pois percebi que tinha sido enganado e não quis discutir. As pessoas que me conhecem sabem que eu não discuto, viro as costas e construo tudo de novo, e foi o que eu fiz!

Contudo, uma semana antes eu havia recebido um bônus das empresas anteriores e acabei trocando a guilhotina da gráfica por outra “zero km”. Por sorte, essa o banco não podia tomar. Depois de dividirmos os acordos para pagamento dos bancos e fornecedores em três partes, eu tirei a guilhotina de lá e a vendi, juntamente com o único carro que tinha, para pagar a dívida. Sei que faz parte, mas deveria ter checado antes de ser sócio. Na verdade, não saberia nem por onde começar esta checagem, naquela época.

Na semana seguinte, após “a poeira ter baixado”, iniciei uma série de visitas aos clientes, contando de uma forma técnica e não comentando sobre os sócios, acerca do que tinha acontecido. Para a minha surpresa, grande parte daqueles empresários já tinham passado por problemas parecidos, em algum momento de suas vidas. Aquilo, por um certo momento, colocou-me de novo nos trilhos, arregacei as mangas e comecei novamente do zero.

Agora vem o melhor da história: como atender clientes que precisam comprar impressos se você não tem gráfica? Foi então que peguei o papel e a caneta e comecei a projetar um novo planejamento para voltar ao setor, mas dessa vez como proprietário único da gráfica! Com a verba que me sobrou consegui comprar um FIAT Prêmio 1986, que parava dia sim dia não no mecânico. Fora o dinheiro que gastava eu para consertar, tinha que arcar com os custos do dia sem o carro. A Tati e eu passamos muitos momentos engraçados com aquele “pau véio”.

Entre os meus trabalhos, dos onze aos quinze anos eu acabei fazendo um curso de programação de sistema no SENAI em São Paulo, e foi naquele curso, em 1985 que mexi em um computador pela primeira vez. Desde então eu só via estes computadores nas empresas, de longe, inclusive na gráfica onde fui sócio. Eu olhava para eles e ficava pensando, será que tem futuro?



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